‘Me faltou boneca, mas o amor dos meus pais, jamais’, diz Eliana


Quem vê Eliana brilhando aos domingos no SBT não imagina que a apresentadora foi vítima de preconceito na infância. Por ser filha do zelador do prédio, o pai de um amiguinho a discriminou. Hoje, data em que se comemora o Dia das Crianças, Eliana relembra o episódio e diz que ainda tem contato com esse senhor, porque a apresentadora comprou um apartamento para sua mãe no mesmo edifício. “Ele me encontra toda semana e, no elevador, pelo menos uma vez por mês. Acho que a resposta está aí, não precisa a gente dizer nada. A vida e o tempo se encarregam disso”, afirma Eliana, do alto de seus 26 anos de carreira.


Vamos começar falando sobre trabalho. Hoje você concilia a TV com uma editora e um site feminino. Como surgiu a ideia desses dois outros projetos? 
A editora surgiu da vontade de perpetuar a obra de artistas que eu gostava e não tinha oportunidade de lançar os seus projetos. Mas daí, as coisas ganharam um rumo maior. Tivemos o primeiro lançamento, que foi um livro em parceria com a MTV, depois tivemos outros títulos e outros autores de reconhecimento nacional como Fernando Meirelles. É uma honra para mim, como apresentadora, ter uma editora de livros. Sobre o portal, eu sou louca por conteúdo feminino. Na verdade, eu tinha um acesso muito grande para falar do meu trabalho como apresentadora e comunicadora através do meu site (eliana.com.br) com mais de um milhão de acessos por mês. Foi aí que surgiu a ideia junto com jornalistas que trabalham com cultura (elas trabalham no site colherada.com). Nos reunimos para pensar no projeto do ‘Daqui e Dali’. 

Seja sincera: você pensou nesse projeto como realização ou em lucro? 
Olha, pra quem conhece o mercado editorial não é um investimento para lucros, infelizmente. No nosso país, a leitura e os livros estão perdendo espaço para o digital. É claro, nós, os amantes de livros, continuamos consumindo. Mas, a nova geração consome em tablets. A ideia da editora é que tenhamos a permanência de verdadeiras obras de arte. Que seja como um presente com valor para as pessoas. 

O quadro ‘Rola ou Enrola?’ é o maior sucesso nas redes sociais, mas ele volta e meia sai do ‘Programa da Eliana’. A audiência não cai quando ele está fora do ar? 
Ele é um formato que compramos por temporada e por isso temos que respeitar o descanso desse intervalo. Agora em janeiro, ele volta com tudo para as férias, com rapazes se apresentando naquela esteira e com as mulheres fazendo suas escolhas. Geralmente, é ao contrário. Na TV brasileira vemos que os homens que conduzem, mas no nosso programa, com uma figura feminina no comando, são elas que escolhem e mandam no pedaço. 

Por falar em figura feminina… Você é a única mulher na disputa de audiência no domingo nesse horário. O diretor tem essa consciência de falar com as mulheres ou é um programa generalizado para toda família? Reparo que, entre as atrações dominicais, você é a única que não faz exploração dos dramas humanos. 
Então, vamos à primeira pergunta. Fico lisonjeada de, em breve, completar 10 anos com um programa aos domingos. Parece que foi ontem, mas comecei em 2005 na Record. A transição foi muito bem feita, já que trabalhei muitos anos com criança e passei por essa mudança, que foi um grande desafio profissional. O público e a família brasileira me abraçaram. De cara, ficamos em segundo lugar e já alcançamos o primeiro várias vezes. Sempre respeitei as crianças, as avós e todos que assistem. Aos domingos, na maioria das vezes, quem está na frente da TV é a mulher, por isso acabamos tendo mais conteúdo feminino. Como mulher, acabo tendo mais facilidade e passo a minha verdade ali. É natural, parece que estou em casa com um grupo de amigas conversando. Quando se fala em explorar as mazelas humanas não tem a ver com o que eu acredito como profissional. Isso não quer dizer que não funcione com outro comunicador e em outro programa. Digo que não brigo pela audiência, eu a construo. Você pode ter um bom quadro, um excelente convidado e no domingo seguinte não ter nada disso. 

Você teve uma vida normal, mesmo tendo começado sua carreira artística tão nova? 
Eu acho que isso pode ser visto de várias formas (risos). O que acontece de uma maneira geral, quando a gente começa a trabalhar muito cedo, é que precisamos fazer escolhas. Enquanto minhas amigas estavam indo para balada e viajando com o pessoal da faculdade, eu estava trabalhando. Aos finais de semana, eu trabalhava fazendo shows e durante a semana estava gravando o programa. Não me sobrava tempo para viver intensamente a minha juventude e adolescência. Até em aniversários meus e da minha família, além de Natal e Ano Novo, que são datas importantes e que fazem diferença, cheguei a chorar e me entristecer na estrada. Ficava dividida entre o trabalho, a família por perto, o colo da mãe… Eu, aos 12 anos, já estava me profissionalizando. Mas, no final das contas, foi muito bom. Tenho verdadeira paixão pelo que faço, pelo meu ofício. Mas, é claro, eu me divertia e nas minhas horas vagas eu tinha uma vida normal. 

Antes de você se casar, você tinha o costume de sair à noite, né? 
Sempre e até casada, como faço hoje em dia também. 

Em São Paulo, vocês fazem as coisas e a gente não fica sabendo. 
Não, não. Sou uma pessoa normal. Vou ao supermercado e também à feira. 

Você no supermercado? Para, Eliana! 
Vou sim. Tem uma feira perto da minha casa aos sábados que eu vou. Tem também um supermercado que eu frequento na região onde eu moro há 14 anos. Tenho minhas funções normais e de mãe, como levar meu filho para a escola, natação. Me divido entre meu trabalho, a editora, meu escritório e meu filho. Minha vida é normal, o que me difere das outras pessoas é que trabalho na televisão. 

Essa semana entrevistei a Angélica e falamos sobre botox. Ela comentou sobre o preconceito que as pessoas têm sem mesmo conhecer o que é. Você usa botox? 
Eu já usei. Isso com uns 29 anos, eu era muito jovem. Eu hoje uso o laser, que é um grande aliado não só da saúde como também da estética. Sou apaixonada por vários aparelhos que usam laser. Ele substitui o botox e minimiza as rugas. 

Você teve crise com a chegada dos 40 anos? 
Claro (risos). Você sair dos trinta e poucos, que era uma delícia… Confesso que aos 20 e poucos eu era insegura, mas aos 30 anos e depois deles foi a fase que mais amei. Falava com orgulho, porque você não é mais menina, começa a amadurecer e ganhar mais respeito. Isso para falar de negócios também. Agora, aos 40 anos te respeitam de vez (risos). A gente começa a repensar a vida, aos 40 comecei a pensar em quantos anos de vida a mais eu tenho. Não é o visual e envelhecimento em si, mas, sim, em qualidade de vida e tempo para viver a minha vida. Você pensa e a crise é nesse sentido. 

Assim que você se separou surgiram nomes de possíveis affairs, até mesmo no seu trabalho, quando você recebe convidados. Como você lidou com isso? Lida bem? 
Sim! De fato, recebo moças e rapazes no meu trabalho. Se é um homem bonito, já vira motivo de affair. Se, por um lado, me surpreende, por outro, me faz rir. 

A chance de rolar algo fora do trabalho acaba sendo menor, não é?
Naquele momento, no palco, estamos trabalhando, eu como apresentadora e a pessoa divulgando sua peça, seu CD… Sinceramente, chega a ser curioso o que vou te dizer, mas não há espaço para esse tipo de momento. Sou muito séria no meu trabalho, todos sabem e não é de hoje, além das pessoas que eu recebo, que também são. Então, eu acho que isso seja fruto do imaginário. 

A sua seriedade distancia os possíveis pretendentes? 
Não, não. A seriedade não é um fator que afasta, acho que pode até aproximar. De fato, com relação aos artistas que vão ao meu programa, não há brecha para isso. Gravo quase nove horas na emissora e fico no SBT por 12 horas a cada programa. Não dá, sinceramente. 

Em uma recente entrevista, você contou que sua cama é enorme. Você é espaçosa? 
É verdade (risos). É que prezo pelo conforto. Não ocupo esse espaço todo, mas gosto de saber que ele está ali se eu quiser. 

Em entrevista ao ‘Conexão Repórter’, você se emocionou ao relembrar que sofreu preconceito na infância. Ficou um trauma? 
Acho que trauma não. Eu transformei as dificuldades e preconceitos em força e incentivo para eu realizar meus sonhos e chegar onde eu imaginava. 

Sobre o que era esse preconceito? 
É que meu pai era zelador. Eu era uma menina muito simples e visitava a casa dos condôminos como filha do zelador. As crianças me convidavam e queriam que eu estivesse na casa delas, mas alguns pais, um em específico, se rebelou contra o meu relacionamento com os filhos dele. Isso porque eu era uma criança simples, que morava numa apartamento de um quarto, estudava em uma escola estadual… Meus pais não tinham dinheiro para eu aprender outras línguas, como as crianças. Eles moravam em apartamentos de quatro quartos… Era uma diferença social muito grande. Foi a primeira vez que conheci o preconceito de fato, senti na pele. Apesar da diferença social, de brinquedos, roupas, a criança não sente. Tudo é brincadeira, criança se diverte com pouco. Mas este pai me mostrou isso e fiquei muito triste. Minha mãe conversou comigo, explicou e falou das nossas diferenças. Aí, entendi que eu era filha do zelador. Muitas vezes, eu queria a boneca da moda, mas sempre tive meus pais me dando atenção e amor. As outras crianças passavam muito tempo só com as babás. Me faltou boneca, mas o amor e a atenção dos meus pais, jamais. 

Hoje sua vida mudou. Nessa transformação, você já se deparou com pessoas preconceituosas como esse morador do prédio do seu pai? 
Acho que a vida se encarrega de tratar essas pessoas. Esse senhor que citei, por exemplo, encontra comigo toda semana. Eu comprei um apartamento para minha mãe no prédio onde passei toda minha vida. Esse senhor me encontra toda semana e no elevador pelo menos uma vez por mês. Acho que a resposta está aí, não precisa a gente dizer nada. A vida e o tempo se encarregam disso. Parece clichê, mas é verdade. É nessa lei que acredito. 

Como você se avalia como mãe, Eliana? 
Eu sou uma mãe muito zelosa e amorosa, é claro. Esperei muito pelo Arthur e ele chegou na melhor hora. É fruto de muito amor e é uma criança muito feliz e amada. O mais importante para mim é eu ter horas para o meu filho. Ele veio num momento em que eu pude arrumar minha agenda para ter as manhãs com ele e ter o privilégio de vê-lo crescer. 

Para finalizar, o que você quer para sua vida? Isso engloba o pessoal e profissional. 
Pessoalmente, é ter saúde e ver meu filho crescendo como uma criança corajosa e pronta para enfrentar as dificuldades. Não é fácil educar, com tanta informação e coisas acontecendo. Quero aprender a cada dia e quero que Deus me dê discernimento de criar meu filho da melhor forma possível. Profissionalmente, desejo concretizar tudo aquilo que plantei. Ser uma comunicadora para a família brasileira foi um presente depois de ter trabalhado só para as crianças. Quem sabe no futuro eu possa fazer um programa à noite, onde eu possa mostrar ainda mais meu lado mulher e falar de assuntos de rodas de amigas?

Matéria publicada por O Dia
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